A autobiografia da rainha do rock Tina Turner, lançada pela editora BestSeller, nos mostra os fatos da vida da cantora narrados desde a sua infância na cidade de Nutbush, no Tennessee, passando pelo seu relacionamento abusivo com o seu parceiro Ike Turner e a fuga desse relacionamento, até os seus dias atuais vivendo com o seu atual marido Erwin na Suíça. O livro trata de abuso, superação, etarismo, saúde mental e amor, pela lente de uma das mulheres mais incríveis do meio musical.

Tina Turner viveu em um relacionamento abusivo por 14 anos, entretanto, conseguiu fugir e reerguer a sua carreira aos 40 anos de idade. Posteriormente, encontrou o amor em um homem 16 anos mais jovem, com quem vive até hoje. Tina superou um AVC, um câncer no intestino e passou por um transplante de rins em seus quase 80 anos de vida. Em “Tina Turner – Minha história de amor” acompanhamos essas diversas passagens de sua vida e detalhes que até então ninguém conhecia sobre o seu relacionamento com Ike e o atual marido, Erwin Bach.

A autobiografia da cantora foi escrita em parceria com Deborah Davis, escritora e autora de oito livros, e Dominik Wichmann, jornalista e ex editor-chefe de duas importantes revistas alemãs, a Stern e a Süddeutsche Zeitung Magazin. Tina Turner já tinha uma biografia muito conhecida, publicada em 1986. Trata-se de “Eu, Tina: A História de Minha Vida”, que deu origem ao filme de 1993, “A verdadeira história de Tina Turner” (“What’s Love Got to Do with It”, no original), protagonizado por Angela Bassett e Laurence Fishburne. Contudo, essa nova autobiografia é uma continuação da história da vida da cantora.

Nascida Anna Mae Bullock, em 26 de novembro de 1939, ela cresceu com a sua família no Tennessee e teve uma relação muito difícil com a sua mãe, que não queria uma segunda gravidez e, por causa disso, a rejeitava. A narrativa do livro mistura passagens mais recentes da vida da cantora com momentos pesados de seu relacionamento com Ike Turner, abordando todo o abuso e violência que ela sofreu em 14 anos sendo casada e trabalhando com ele.

O relacionamento abusivo com Ike Turner

Ike e Tina Turner
Ike e Tina Turner. Imagem: reprodução

Em “Tina Turner – Minha história de amor“, a cantora não nos poupa dos momentos de extrema violência física e mental que passou ao lado de seu primeiro marido, Ike Turner; ao mesmo tempo, nos mostra todas as nuances de um relacionamento abusivo e as faces de homem controlador e violento, que se sentia inferior em relação a ela, pois sabia que precisava dela por perto para ter sucesso.

Por causa da relação complicada que ela tinha com a mãe – e após ter sido abandonada pela mesma aos 11 anos – ela foi morar com seus avós. Aos 17 anos, depois que sua avó faleceu, ela voltou a morar com a sua mãe e irmã em St. Louis, portanto foi nessa mesma época que conheceu Ike Turner. O encontro ocorreu em um clube, após chamar a atenção de todos com a sua voz. Apesar de muito jovem, Tina já tinha um estilo próprio de cantar e uma facilidade para decorar músicas.

No início, ela entrou para a banda de Ike, mas a relação era apenas de amizade, mesmo assim ele já a manipulava para mantê-la sempre por perto na banda. Nessa época, Tina ficou grávida de seu primeiro filho, fruto do relacionamento com um dos músicos do grupo. Essa relação não durou muito e com o tempo ela se aproximou mais de Ike Turner. Nesse ínterim, os dois se tornaram um casal no início da década 1960.

Ainda conhecida como Anna Mae, Tina já chamava a atenção pelo seu talento, influenciada por nomes como Sister Rosetta Tharpe, LaVerne Baker e Mahalia Jackson. Foi nessa época que a violência começou a fazer parte da vida da cantora. Como forma de a controlar e impedir que ela fosse embora, Ike começou a ser violento. Contudo, é importante avisar que a descrição dos abusos vivenciados por ela, pode ser um gatilho para quem já passou por situações de violência doméstica. Ao mesmo tempo, é importante entender porque ela passou tanto tempo ao lado de um homem como ele e as estratégias que ele usava para mantê-la cativa em sua própria casa.

Enquanto nos palcos Tina Turner era o centro das atenções e dominava tudo com o seu talento, entre quatro paredes era tratada da pior maneira possível, ouvindo insultos, trabalhando como dona de casa, sem receber salário e sem nenhum acesso a dinheiro; Ike controlava tudo. A situação era tão pesada que ela teve que continuar se apresentando mesmo estando grávida de seu segundo filho. Ela também relata a sua tentativa de suicídio, quando já não aguentava mais viver aquela situação e decidiu que dar um fim à sua vida seria a melhor solução.

“Hoje em dia, vejo que nossa vida era uma paródia de um relacionamento “normal”: definido pelo abuso e pelo medo, não por amor ou afeto. Nós fizemos tudo o que casais apaixonados fazem. Tivemos um filho juntos. Ike se mudou para Los Angeles e alugou uma casa, onde vivíamos como uma grande família feliz, com Ike Jr. e Michael, filhos de Ike com Lorraine, crescendo com Craig e Ronnie.
Eu era a “mãe” de todos os meninos – que tinham de dois a quatro anos, quando eu mesma só tinha vinte e três. E então em 1962, nos casamos naquela cerimônia deprimente em Tijuana.”
– Trecho do livro “Tina Turner – Minha História de amor”

Como é mostrado no livro, Tina também não podia conversar com muitas pessoas fora do círculo de seu então marido, que só se casou com ela para, segundo ele, fugir de outra mulher. Ele chegou a humilhá-la, levando Tina para um bordel em sua noite núpcias. Tudo isso servia para deixá-la alienada do mundo exterior sem ter noção do quanto as pessoas a admiravam sem a presença de Ike.

Para não perder o controle da carreira, Ike mudou o nome dela para “Tina Turner”, a contragosto da mesma, e renomeou a sua banda para Ike & Tina Turner, usando isso como outra forma de prendê-la nessa relação.

Tina Turner
Tina Turner em show no final dos anos 1960 (Imagem: reprodução)

Na década de 1960, Tina também relembra os momentos de racismo em que passou, viajando pelo país em plena época da luta dos movimentos pelos direitos civis dos negros americanos, assim como a resistência que encontrou para fazer sucesso no Estados Unidos, fazendo um som que não era “branco” ou “negro” o suficiente quando, então, gravou “River Deep Mountain High” com Phil Spector. Afinal, Tina sempre foi uma mulher com raízes na música country e no rock ‘n roll, dois ritmos que estavam sendo cooptados pelas audiências brancas.

Apesar de passar por um relacionamento abusivo em sua vida pessoal, em sua carreira Tina arrancava elogios por onde passava e estava longe de ser o furacão que era nos palcos quando conhecia as pessoas fora dele. Em 14 anos de casamento e parceria com Ike Turner, ela conseguiu trabalhar com Phil Spector e os Rolling Stones, ficando muito amiga de Mick Jagger. Em sua carreira com o grupo Ike & Tina Turner, ela se consagrou com sucessos como Proud Mary, River Deep Mountain High e Nutbush City Limits, além de ajudar a escrever a história do rock na década de 1960.

A fuga e o renascimento de sua carreira aos 40 anos

Após passar 14 anos sofrendo todo tipo de tortura física e mental ao lado de Ike Turner, Tina consegue finalmente fugir das mãos de seu algoz, aos 37 anos de idade, com apenas a roupa do corpo e alguns centavos no bolso. Com a ajuda de amigos e da família, ela começa a se reerguer longe da violência e do abuso que marcaram a sua juventude e começo da vida adulta.

Nesse período, Tina passou por muitas dificuldades para conseguir se recuperar e começar uma vida nova com os seus filhos, sofrendo novamente rejeição de sua mãe, que ficou do lado de Ike. Seu ex-marido a perseguia e chegou ao ponto de mandar matá-la e atirar na sua casa quando todos estavam lá, além de tentar trazê-la de volta de todas as maneiras possíveis. Ela também ficou endividada, pois não compareceu aos shows que tinha com Ike e as casas de show a processaram.

Cher e Tina Turner
Cher e Tina Turner no Live on The Cher Show, em 1975 (Imagem: reprodução)

No final da década de 1970, Tina Turner encontrou na cantora e apresentadora Cher, uma amiga e alguém que tinha passado por uma situação parecida, já que ela estava recém divorciada de seu ex-marido Sonny e as duas compartilhavam experiências parecidas.

“Quando olho para trás vejo que nossas situações eram bem parecidas. Nós duas éramos muito jovens quando conhecemos os nossos maridos. Cher só tinha dezesseis anos quando começou a namorar com Sonny. Não sabíamos como fazer coisas simples, porque nunca nos viramos sozinhas. E lá estávamos nós, cantoras famosas que faziam fortunas mas eram incapazes de escrever um cheque.”, conta Tina em um trecho do livro. Aos poucos ela foi conseguindo ter uma vida saudável, com liberdade e longe dos abusos.

No começo dos anos 80, ela conseguiu um novo empresário e foi para a Europa, onde era adorada e tinha uma recepção melhor do que em seu país natal. Com ajuda de nomes como David Bowie, Mick Jagger, Ryan Adams e Mark Knopfler, que Tina compôs o sucesso Private Dancer, que foi capaz de reerguer e reinventar sua carreira. Aos 40 anos de idade, ela estourou nas rádios e experimentou o sucesso e a liberdade pela primeira vez, tornando-se a cantora consagrada que todos conhecem, após um longo período tentando se livrar do vínculo que tinha com Ike Turner.

Tina Turner e David Bowie
Tina Turner e David Bowie no vídeo de Tonight (Imagem: reprodução)

Para as mulheres da indústria do entretenimento, a carreira começa a decair aos 40 anos, pois tanto os empresários quanto as gravadoras preferem vender cantoras mais jovens, mas Tina renasceu das cinzas e quebrou esse tabu. Fazendo sucesso com os seus 40 e poucos anos, tornou-se estrela nos cinemas ao protagonizar o filme “Mad Max – Além da Cúpula do Trovão”, ao lado de Mel Gibson, com um visual icônico e uma canção que se tornou um clássico, “We Don’t Need Another Hero”.

Quando questionada por seu então namorado Erwin Bach sobre o porquê de ter recebido uma grande ajuda de nomes como David Bowie e Mick Jagger – quando estava refazendo a sua carreira – coisa que, segundo ele, os dois não fizeram por mais ninguém, Tina respondeu:

“Acho que eles gostavam do que viam – uma mulher que os encarava vocalmente, que encarnava o espírito do rock and roll nos palcos e que parecia estar se divertindo. David sempre dizia: ‘Quando você dança com Tina, ela te olha nos olhos’. Nós éramos parceiros. Iguais, na época, não havia mulheres que cantavam e dançavam como eu”.

Ao longo da década de 80, Tina Turner se consagrou com músicas como The Best, Private Dancer, What’s Love Got to do with It, Let’s Stay Together, entre outras, além de parcerias na canção Tonight, com David Bowie, e na já clássica apresentação com Mick Jagger no Live Aid, de 1985.

Sendo aclamada como a “Rainha do Rock”, além da única mulher negra a receber 12 Grammys no decorrer de sua carreira, Tina Turner entrou para o livro dos recordes quando se apresentou no Maracanã, em 1988, para um público de mais de 180 mil pessoas, e ela foi a única artista solo a conseguir tal feito.

Em sua carreira, Tina também foi influência para diversas cantoras que se inspiraram em seu jeito forte e poderoso nos palcos, como Beyoncé, que cantou Proud Mary com Tina na premiação do Grammy em 2008.

Um novo amor e uma nova vida

Depois de anos sofrendo abusos de seu ex-marido, algo que a traumatizou para sempre, Tina encontrou o amor novamente no empresário da indústria musical Erwin Bach, por quem se apaixonou perdidamente à primeira vista quando estava com 46 anos e ele com 30. Com ele, Tina viveu pela primeira vez um relacionamento saudável e igual, baseado no amor e respeito. Os dois estão juntos há mais de 30 anos, mas só se casaram oficialmente em 2013, na Suíça, onde ela tem cidadania e vive até hoje.

Entretanto, esse foi mais um tabu que Tina quebrou ao se relacionar com um homem 16 anos mais novo. Ela teve que ouvir que ele só estava com ela por interesse, além de outras maldades por parte das pessoas, mas seu relacionamento serviu para ajudar outras mulheres a não terem vergonha de se relacionar com homens mais jovens, segundo a cantora.

Em uma sociedade que é cruel com mulheres mais velhas e costuma colocar prazo de validade nas mesmas, conseguir ser amada e obter sucesso após os 40 anos sem se preocupar com o que os outros diziam foi um grande feito na vida de Tina, ainda mais depois de tudo o que ela passou. Ou seja, essa foi mais uma barreira que ela teve que quebrar.

Aliás, quebrar barreiras foi o que Tina Turner fez durante toda a sua vida. Enfrentando o racismo nos anos 60 e sendo uma mulher negra livre nos anos 80; conseguiu escapar de um casamento abusivo e uma relação profissional ainda mais degradante e dar a volta por cima, com ajuda do budismo e de seus amigos e familiares.

Já na terceira idade, enfrentou diversas doenças, mas teve o apoio incondicional de seu amado Erwin. A morte precoce de seu primeiro filho, que se suicidou aos 59 anos, em 2018, foi a dificuldade mais recente que ela teve enfrentar e, para conseguir seguir em frente, Tina colocou todos os seus esforços nos ensaios de um musical sobre a sua vida e em sua autobiografia.

Em “Tina Turner – Minha história de amor“, conhecemos profundamente a vida da cantora, que entrou para história pelo seu talento, carisma e vigor, mas também compreendemos o que é viver em um relacionamento abusivo e como isso afeta para sempre a vida de uma pessoa. Aprendemos como se pode seguir em frente e ser feliz e amada após tanto sofrimento.

A história de Tina Turner serve de inspiração sobre como uma mulher negra e nascida numa cidade do interior, quebrou barreiras, enfrentando o preconceito e a violência e, no final, conseguiu transformar tudo numa história de amor que se tornou o legado da cantora para os seus fãs.

*Texto publicado originalmente no site Delirium Nerd.

Ouça a playlist com as músicas do livro:

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Tina Turner – Minha História de Amor
Editora: BestSeller; Edição: 1 (8 de abril de 2019)
224 páginas

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