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Entrevista: Conversamos com o duo Fuzzuês sobre suas influências e a cena musical atual

Entrevista: Conversamos com o duo Fuzzuês sobre suas influências e a cena musical atual

Foto da dupla Fuzzuês

A banda Fuzzuês formada pelos músicos Mariô Onofre (bateria) e Uly Nogueira (guitarra) lançou o vídeo do seu primeiro single “Voodo Trabalhando” em 14 de maio de 2021.

A dupla formada por dois amigos surgiu após os dois integrarem projetos anteriores e sentirem que podiam fazer coisas diferentes no meio do rock. Cheios de estilo e opiniões fortes em relação cena alternativa brasileira a dupla busca criar um som autoral baseada na ancestralidade africana, misturando ritmos como o Blues, o Punk Rock e Xires de Candomblé.

“Eu sou uma pessoa negra alternativa que não faz mais parte da cena alternativa (risos)… 1° A cena alternativa no Brasil não é preta. 2° A cena alternativa no Brasil é Racista.”
– Mariô Onofre

Buscando resgatar um gênero que nasceu da ancestralidade negra e acabou sendo apropriando e embranquecido ao longo dos anos, ao ponto de pessoas negras não se reconhecerem mais nesse meio, o Fuzzuês traz uma autenticidade e frescor mesmo juntando alguns elementos que não tão comuns ao que se consolidou como gênero de rock atual.

Conversamos com o duo sobre as sua influências, seu single mais recente, comunidade negra e o incentivo que eles dão para pessoas negras que querem formar uma banda.

S.A. – Como vocês dois se conheceram e como surgiu a ideia da banda?

Mariô: A ideia da banda surgiu depois de uma certa insatisfação com uma banda preta de blues que a gente tinha pois os outros integrantes moravam em outra cidade e eram bem caretas com regras musicais que não faziam muito sentido pra mim porque sempre busco a transformação e não a cópia, com isso dei a ideia pro Uly da gente ser uma dupla ele refutou um pouco, mas depois de nosso primeiro ensaio em dupla saímos com duas músicas muito boas e assim nasceu o Fuzzuês.

Uly: O rock nos uniu. Tinha uma banda chamada Os Haxixins que fazia um garage punk inspirados na década de 60. Banda, que por sinal era composta por dois pretos (Fábio Fiúza e Uly Nogueira). Na época, Mariô enviou uma mensagem dizendo que curtia o som da banda e uma monte de coisa dos anos 60 e 70. Então, eu falei: “Cola nos ensaios pra gente se conhecer.” Foi quando Mariô apareceu no ensaio e daí pra frente foi daquele jeito, várias ideias sobre o rock que estávamos fazendo e ouvindo na época, cervejas, jams sessions, rolês, loucuras…rrrss
Uma curiosidade! Semanas antes, meus amigos tinham ido no show do Erasmo Carlos se não me engano, e disseram ter visto um cara com as características roqueiras semelhantes a minha. Roupas apertadas, bico finos, cabeleira black e tal. E brincaram dizendo que era meu filho perdido. Então, tá achado!!!!!

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S.A. – Quais são as principais influências da banda no visual e musicalmente?

Uly:  Acredito que o Blues, o Punk Rock e Xires de Candomblé, diretamente estruturam a base musical da banda, mas na emoção da criação a gente vai lembrando de uma porrada de coisa estranha que ouvimos por aí. O visual acompanha a mesma pegada. Vai ter muito do estilo punk, vintage, influências africanas. Gostamos de colares, botas, uns penteados, tinturas, customizar algumas peças,… A ideia é fazer essa conexão no melhor estilo Maloca do Espaço.

Fuzzuês: Mariô Onofre e Uly Nogueira

S.A. – Vocês fazem parte de uma geração de artistas negros que estão retomando o legado negro do rock, que sempre foi preto. Como é para vocês fazer rock no Brasil atualmente?

Mariô: Particularmente falando acho que o Fuzzuês vai dar um passo importante nessa retomada porque a gente está fazendo algo genuinamente puro e não tentamos copiar ninguém como muitas das bandas fazem. Somos nossa própria referência e isso reflete muito o que é fazer esse tipo de som hoje em dia sendo negro/preto, por mais que falemos que o rock é preto coisa e tal, não é bem isso que a gente vê por aí. Eu conto em uma das mãos as bandas que eu gosto onde todos os integrantes são pretos hoje em dia no Brasil. Nossa missão é chegar nas quebradas, falando coisas que nós pessoas negras/pretas passamos, não ficamos reproduzindo slogans progressistas ou falando que somos todos iguais. Não somos iguais e estamos aqui pra falar exclusivamente com a favela com a pretitude… Se outras classes e outras etnias gostarem do nosso som, isso não é problema nosso.

Uly: Sim, estamos dando continuidade ao que outras bandas de artistas negros fizeram ao longo do tempo.
A banda nem teve tempo de tocar e começou esse lance da pandemia. Por experiência, posso te dizer que se não é a gente juntar os camaradas, os equipos e um lugar, a gente não toca.


S.A. –
Nos últimos anos, projetos como Metaleiras Negras, Black Parade e Afropunk criaram um espaço seguro  para pessoas negras que gostam de rock e da cena alternativa possam se conhecer. Como vocês veem esse tipo de iniciativa e como é pra vocês ser uma pessoa negra na cena alternativa?

Mariô: Projetos mais que necessários, mas no Brasil muitos pretos que curtem música alternativa pegaram uma péssima mania da branquitude, algo saudosista de endeusamento de bandas ou integrantes que já fizeram sua história, vivem de passado ignorando tudo que acontece hoje em dia na música, creio eu que temos que falar da música negra num todo e acho que a AFROPUNK sacou essa ideia por isso ganhou uma popularidade muito grande englobando a comunidade como um todo e não separando por caixinhas. Eu sou uma pessoa negra alternativa que não faz mais parte da cena alternativa (risos)… 1° A cena alternativa no Brasil não é preta. 2° A cena alternativa no Brasil é Racista. Eu já disse uma vez em um doc da Black Parede que antes da gente ser roqueiro e qualquer outra coisa a gente tem que entender que a gente é preto. Eu hoje em dia só saio com gente preta dos mais variados estilos, vamos (íamos) pros bayle, pancadão e eu sempre ia no estilo e isso nunca foi problema nenhum pra ninguém, estou muito bem fora da cena. Ou a gente toma iniciativa de mudança para ser um reduto para pessoas alternativas perdidas por aí fora dessa “cena” grotesca, ou o que nos resta é passar por várias situações raciais e ficar chorando por um bom tempo na mão da branquitude da “cena”. Textinho de Facebook não vai adiantar.

Uly: Nem vejo uma outra solução senão tomarmos iniciativa. Quanto mais nos abrirmos espaço, mais a gente se fortalece. E é importante que a curadoria desses projetos balanceiam a diferença entre artistas mais e menos conhecidos. E sobre a cena alternativa, a gente toma de assalto.

Fuzzuês. Foto: Raphael Enes.

S.A. – No single “Voodoo Trabalhando” vocês falam de ancestralidade e rituais. Como foi compor essa música e gravar o clipe na pandemia?

Mariô: Essa letra compus em 2020 depois de me recuperar da COVID-19 pela 1° vez, ainda era no começo do isolamento lá pra março, essa época escutava muito xirês de candomblé e esse som saiu depois de eu decorar uma música pra Obaluaê e minha cabeça meio que traduziu com uma referência de Grand Master Flash hehehehe. Assim nasceu a letra, o Uly se encarregou de pôr as melodias e o tom da minha voz no lugar.

Uly: A gente mesmo que dirigiu e roteirizou o clipe e contamos com a participação do nosso amigo Raphael Enes na produção e pós. Sinceridade com pandemia ou sem pandemia a correria ia ser a mesma. Então, fizemos o que tinha que ser feito. Conseguimos reforçar com o clipe a ideia da descolonização através de uma busca pela cura na ancestralidade.

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S.A. – Uma das coisas que mais prende em “Voodoo Trabalhando” são as distorções da guitarra quase hipnotizantes. Quais são os instrumentistas que inspiram vocês e como vocês resolveram se tornar guitarrista e baterista?

Uly: Não pode falar de guitarra sem não citar Hound Dog Taylor, e a distorção fuzz foi herdada da garagem.

Mariô: Instrumentistas que me inspiram bastante são o baterista DARU JONES e o ancestral Elvin Jones, essas pessoas me ensinam bastante pelo fato de serem diferentes e únicos algo que me considero também. Eu me interessei pela bateria após ver um show ao vivo de Jimi Hendrix na MTV na época do canal aberto, depois que vi o batera do Hendrix fazer aquelas viradas espetaculares eu decidi que um dia ia tocar bateria, devia ter uns 13 anos de idade.

S.A. – Quais são os próximos passos dos Fuzzuês daqui pra frente?

Mariô: pretendemos terminar um som e lançar mais um clipe pra esse ano. Mas a gente quer o Brasil isso sem dúvida no decorrer dos próximos anos pode se tornar realidade ou meramente um delírio.

Uly: Lançar um Ep, gastar umas energias com o clipe da que acabou de sair, terminar uns sons. Vixe, ainda temos muito leite pra vomitar… hahahahah

S.A. – Qual mensagem vocês deixam para pessoas pretas que querem formar uma banda?

Mariô: Minha mensagem é que se juntem com pessoas da mesma intensidade e energia que você, não se perca com rótulos e movimentos referente ao rock que só vai te atrapalhar dependendo de quem está do seu lado, não deixe ninguém tirar a grandeza que existe dentro de você e evitem formar banda com gente branca a não ser se for pra contratá-los como músico de apoio, não confie sua arte para quem sempre te roubou. No mais é só chamar a gente no direct, você não está sozinho(a).

Uly: Cola, que é nosso.

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