*Por Ana Paula Porfírio

Negras no Underground traz uma entrevista especial com a vocalista da Banda Hardcore MAAFA a Flora Lucini, que também integra a Banda de Post Punk The 1865 como baixista.

Confira agora a nossa entrevista e um pouco do trabalho da Flora no Hardcore/ Punk, amizades que trouxe a representatividade negra no palco do Afropunk, ativismo negro e inspirações que levou para a carreira musical e pra vida.

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Negras no Metal: Como aconteceu de você ir tocar Hardcore fora do Brasil? Conta pra nós essa experiência com o EUA e a cena underground fora do seu país natural.

ENGLISH

I was born in Botafogo, Rio De Janeiro and moved to the United states when I was very young.

My family and I moved to Washington, DC where I grew up and those that know hardcore know that DC has a legendary Hardcore community that gave us bands like Minor threat, Dag Nasty and the originators of hardcore, in my opinion, Bad Brains.

My parents and I are professional Jazz musicians but I was always attracted to more aggressive, louder and faster music. My life changed once I was introduced to Punk Rock. From Punk Rock I discovered all these other styles of Punk/HC derivative genres like Oi, Post-Hardcore, Mathcore etc… But it was during my time as a skinhead girl in DC that I found my love for Hardcore.

I started (and am still) gigging professionally as a bassist around the same time I got into punk and hardcore. I used to attend shows at a community space in Takoma park, MD called The Electric Maid. That’s where I was exposed to all sorts of punk and hardcore music and to the DCHC community.

I decided I wanted to help out some of the local bands that didn’t have bass players so I started playing bass in a bunch of bands. My first punk band was called Booze Riot. Eventually, I went on to play with several different types of bands in and out of hardcore from rockabilly to metal.

One day the Electric Maid announced they were shutting down due to low funding and lack of booking. (They were a non-profit all ages community space that survived on donations from the community and door entry from events for the most part) The Maid was my second home and I decided I wanted to offer them my experience as a booker and my connections with local bands. During that time I was booking gigs for my mother and for friends in the Jazz community, so I took over booking at the Electric Maid for 5 years and it was an incredible experience. Soon word about my booking abilities and roster of local artists grew and My uncle/godfather John “Johnny Bones” Acosta who was running punk shows at another DC venue called “The U-turn” asked me to take over booking when he retired.

This experience allowed me to find my love for hardcore and my love for music business which lead me to study at Berklee College of Music in Boston as a Electric Bassist, Vocalist, Songwriter and Arranger. I majored in Music Business/Performance and Minored in Africana Studies.

My “Chops” evolved and matured tremendously and so did my palate of musical influences.  It was there that I realized I wanted to start a project that combined all of my unique influences and experiences as a young, black, Brazilian, immigrant, Jazz musician, Woman in DC and NY hardcore. That project is known today as “Maafa”.

PORTUGUÊS:

Flora Lucini e o Post Punk da Banda The 1865

Nasci no Botafogo, no Rio de Janeiro e me mudei para os Estados Unidos quando era muito jovem.

Minha família e eu nos mudamos para Washington, DC onde eu cresci e aqueles que conhecem hardcore sabem que DC tem uma comunidade hardcore lendária que nos deu Minor Threat, Dag Nasty e os criadores do hardcore, na minha opinião, Bad Brains.

Meus pais e eu somos músicos de jazz profissionais, mas sempre fui atraída por músicas mais agressivas, mais altas e mais rápidas. Minha vida mudou uma vez que fui apresentada ao Punk Rock. A partir do Punk Rock, descobri todos estes gêneros derivados do Punk/HC como Oi, Post-Hardcore, Mathcore etc… Mas foi durante minha época como garota skinhead em DC (District of Columbia) que descobri meu amor pelo Hardcore.

Comecei (e ainda estou) tocando profissionalmente como baixista mais ou menos na mesma época em que me interessei pelo punk e hardcore. Eu costumava assistir a shows em um espaço comunitário no parque Takoma, MD chamado The Electric Maid. É onde eu fui exposta a todos os tipos de música punk e hardcore e à comunidade do DCHC (District of Columbia Hardcore).

Eu decidi que queria ajudar algumas das bandas locais que não tinham baixistas, então comecei a tocar baixo em um monte de bandas. Minha primeira banda punk se chamava Booze Riot. Por fim, eu passei a tocar com vários tipos diferentes de bandas dentro e fora do hardcore, do rockabilly ao metal.

Um dia, a Electric Maid anunciou que eles estavam fechando devido ao baixo financiamento e falta de reserva. (Eles eram um espaço comunitário para todas as idades sem fins lucrativos que sobrevivia de doações da comunidade e portaria dos eventos em sua maior parte) A Maid era minha segunda casa e eu decidi que queria oferecer a eles minha experiência como booker (agenciadora) e com meus contatos com bandas locais. Durante esse tempo, eu estava agenciando shows para minha mãe e amigos da comunidade de Jazz, então,  assumi a reserva no Electric Maid por 5 anos e foi uma experiência incrível. Logo a notícia sobre as minhas habilidades de agenciamento e lista de artistas locais cresceu e meu tio / padrinho John “Johnny Bones” Acosta, que estava gerenciando shows punk em outro local chamado “The U-turn” me pediu para assumir o agenciamento quando ele se aposentou.

Esta experiência me permitiu encontrar meu amor pelo hardcore e meu amor pelo negócio da música que me levou a estudar na Berklee College of Music em Boston como baixista, vocalista, compositora e arranjadora. Eu me especializei em Music business / Performance e Estudos Africanos.

Minhas “habilidades musicais” evoluíram e amadureceram tremendamente, bem como meu gosto de influências musicais. Foi aí que percebi que queria começar um projeto que combinasse todas as minhas influências e experiências únicas como uma jovem negra, brasileira, imigrante, musicista de jazz na cena hardcore de DC e NY. Esse projeto é conhecido hoje como “Maafa”.

https://youtu.be/K_BC7Ytxwuc

MAAFA- Flora Lucini no Punk Insland 2018

Negras no Metal: Tive o prazer de conhecer os rapazes do Black Pantera na turnê que eles fizeram no sul do Brasil, aqui na cidade de Joinville/SC. Qual é a sensação de poder ver um show do Power Trio integrado por três homens negros brasileiros no Festival Afro Punk?

ENGLISH:

There are no words to describe how powerful it was to not only meet Black Pantera but to share a stage with them. Representation is so important and I can’t stress that enough. That experience was powerful for many reasons but specifically because they were the first all black, BRAZILIAN band that actually played music from the scene I belong to that I’ve ever met and that helped heal a lot of wounds for me. Much like meeting you (Negras no Metal) and building our friendship has done.

I grew up  as a black immigrant in DC listening to Hardcore and Punk during a time where our community did not accept alternative black identities. I was told I listened to “white people music” or  “ That Kill your mother, kill your father, shit” and faced a lot of ostracizing, bullying and violence for unapologetically loving this music and belonging to its community. How that affected how I saw “Blackness’ in America and who “fits” into that definition  was very important.

There are many layers here that I could write a book on but for someone who comes from my generation, meeting other black people of all shades, nationalities, cultures, gender identities, sexual identities and ages that share a love for this music and dismantling a monolithic stereotype of what black people and artists should be, should create or have to look like, has been and forever will be a transformative, important, necessary and powerful experience.

I am grateful for all of the shoulders I stand on from Sister Rosetta Tharpe to Grace Jones to Poly Styrene to Bad Brains to 24-7 spyz and for all who have opened the doors that I walk through today and that I have the honor of calling my colleagues such as Tamar-Kali, Erika “Alpha Betts and Honeychild coleman, just to name a few.

Black Pantera and I are a part of history right now that so many before us had to suffer to make possible for us to be here today and I would like to think that the violence my generation endured and dismantled will help open doors for the next generation that’s yet to come. Meeting them, meeting you and those I mentioned above has healed so many wounds for me and reminds me that we have inherited an incomparable legacy.


PORTUGUÊS:

Não há palavras para descrever como foi poderoso não apenas conhecer o Black Pantera, mas também dividir palco com eles. A representação é tão importante e não posso enfatizar isso o suficiente. Essa experiência foi poderosa por muitas razões, mas especificamente porque eles foram a primeira banda brasileira só de negros que realmente tocaram música da cena a qual pertenço e que ajudou a curar muitas feridas para mim. Muito parecido com o que conhecê-la (negras no metal) e construir a nossa amizade fez.

Eu cresci como uma imigrante negra em DC ouvindo Hardcore e Punk durante um tempo em que nossa comunidade não aceitava identidades negras alternativas. Me diziam que eu ouvia “música de gente branca” ou “aquela merda de mata a sua mãe, mata o seu pai” e enfrentei muitos casos de ostracismo, intimidação e violência por amar flagrantemente este estilo musical e pertencer à comunidade dela. Como isso afetou como eu via a “Negritude” na América e quem “se encaixa” nessa definição foi muito importante.

Há tantas camadas aqui que eu poderia escrever um livro a respeito, mas para alguém que vem da minha geração, conhecer outros negros de todos os matizes, nacionalidades, culturas, identidades de gênero, identidades sexuais e idades que compartilham um amor por essa música e desmantelar o estereótipo monolítico do que pessoas negras e artistas deveriam ser, deveriam criar ou teriam que parecer, tem sido e sempre será uma experiência transformadora, importante, necessária e poderosa.

Sou grata por todos aqueles nos quais me apoio, de Sister Rosetta Tharpe à Grace Jones, à Poly Styrene, ao Bad Brains, ao 24-7 spyz e por todos que abriram as portas que percorro hoje e que tenho a honra de chamar de meus colegas como a Tamar-Kali, Erika “Alpha Betts” e Honeychild coleman, só para citar alguns.

Black Pantera e eu somos parte da história agora que tantos antes de nós tiveram que sofrer para nos permitir estar aqui hoje e eu gostaria de pensar que a violência que minha geração sofreu e desmantelou ajudará a abrir portas para a próxima geração. Conhecê-los, conhecê-la (Negras no Metal) e aqueles que mencionei acima, curou tantas feridas para mim e me lembra que herdamos um legado incomparável.

Flora Lucini e o Power Trio do Black Pantera.
Flora Lucini e o Power Trio do Black Pantera.

Negras no Metal: Não sei se você acompanha o cenário político brasileiro, mas nesse ano, teve o brutal assassinato da então Vereadora Marielle Franco, e a mesma morava no Rio de Janeiro, o Estado ao qual você morava aqui no Brasil. Como foi para você se deparar com uma notícia dessa?

ENGLISH:

It broke my heart and it enrages me to no extent. Because I grew up in the USA, she was the first representation of a modern Black Feminist from MY country that I’ve ever been exposed to. Her life and her work changed my life and my work. She opened the door for me to research about movement work in Brazil and I was so pleasantly surprised to find countless others “just like us” organizing, fighting, dismantling and building. 

I wrote a song before she died called “Filha Da Luta” which I now dedicate to her at every single one of our shows. I talk about her and her legacy on stage. All her labor and her love for a liberated Brazil and World where Black, Queer, Poor, Trans, Woman etc… Identities and bodies can live safely and justly. She represented so much for me and countless others. Losing her in the physical world felt like losing a family member because it felt like losing my only link to the part of my country that doesn’t enrage me.

While It hurts terribly to talk about her everyday in my work or  to sing about her at every one of my shows,  it is the only and the best way I know how to keep her work and legacy alive. I pray that she can hear me. We love and miss you Marielle and we will forever.

PORTUGUÊS:

Isso partiu meu coração e me enfureceu imensuravelmente. Porque eu cresci nos EUA, ela foi a primeira representação de uma feminista negra moderna do MEU país a qual eu já fui exposta. Sua vida e seu trabalho mudaram minha vida e meu trabalho. Ela abriu a porta para eu pesquisar sobre o trabalho de movimento no Brasil e fiquei agradavelmente surpresa ao encontrar inúmeros outros “assim como nós” organizando, lutando, desmontando e construindo.

Eu escrevi uma música antes de ela morrer, chamada “Filha Da Luta”, que agora dedico a ela em todos os nossos shows. Eu falo sobre ela e seu legado, no palco. Todo o seu trabalho e seu amor por um Brasil e um mundo liberados, onde negros, gays, pobres, trans, mulheres, etc … Identidades e corpos possam viver com segurança e justiça. Ela representou muito para mim e incontáveis ​​outros. Perdê-la no mundo físico foi como perder um membro da família porque foi perder meu único vínculo com a parte do meu país que não me enfurecia.

Enquanto dói muito falar sobre ela todos os dias no meu trabalho ou cantar sobre ela em cada um dos meus shows, é a única e melhor maneira que eu sei de como manter seu trabalho e seu legado vivo. Eu rezo para que ela possa me ouvir. Nós amamos e sentimos sua falta Marielle e nós sentiremos para sempre.

Marielle Franco uma referência política brasileira
Marielle Franco uma referência política brasileira

Negras no Metal: A Polly Styrene é uma figura marcante para você dentro da música. Como Influência no Punk Rock, qual o single te inspira na sua vida como uma mulher que está liderando uma banda de Hardcore/ Progressive Afro?

ENGLISH:

The entire project that was the Xray Spex influenced so much for me. So many layers of commonalities between me and Poly, not just in physical appearance, again reinforces the importance of representation. Poly was a Black, Somali (African), Bi-Racial woman leading a band that mixed different styles into punk music very early on. Everything about her and their music was constantly challenging the status quo and what was considered “Punk.” From their instrumentation, like the use of the saxophone in their music to the overall stage performance, messages behind the lyrics and her opera background  all spoke to different aspects of my identity throughout all the different stages of my life.

They were ahead of their time and transcended genre in my opinion, which is in large part of what makes them still relevant to me today.

I guess if I have to pick a single it’s between “Identity” and “Oh Bondage, Up yours!”  songs that to me spoke on race and gender from a sister who looks like me and not a skinny white American woman that read a Gloria Steinam book in college. Poly, Marielle, Betty Davis (the black Betty Davis),  Grace Jones, ESG, Cardi B etc.. Those are the faces of MY feminism.

I can’t really pick just one song because to me Poly Styrene and The Xray Spex is an art that has to be experienced in full, not in parts.

PORTUGUÊS:

Todo o projeto que foi o X-Ray Spex influenciou muito para mim. Tantas camadas de semelhanças entre mim e Poly, não apenas na aparência física, reforçam novamente a importância da representação. Poly era uma mulher negra, somali (africana) e bi-racial liderando uma banda que misturava estilos diferentes na música punk desde muito cedo. Tudo sobre ela e sua música estava constantemente desafiando o status quo e o que era considerado “punk”. De sua instrumentação, como o uso do saxofone em suas músicas para a performance geral do palco, as mensagens por trás das letras e seu passado de ópera, todos dialogaram com diferentes aspectos da minha identidade ao longo de todos os diferentes estágios da minha vida.

Eles estavam à frente de seu tempo e transcenderam o gênero na minha opinião, o que é em grande parte o que os torna ainda relevantes para mim hoje.

Eu acho que se eu tiver que escolher um single, é entre “Identity” e “Oh Bondage, Up yours!”, músicas que para mim falavam sobre raça e gênero de uma irmã que se parece comigo e não com uma americana branca magra que leu um livro de Gloria Steinam na faculdade. Poly, Marielle, Betty Davis (a negra Betty Davis), Grace Jones, ESG, Cardi B etc… Essas são as caras do MEU feminismo.

Eu realmente não posso escolher apenas uma música porque para mim Poly Styrene e The X-Ray Spex é uma arte que tem que ser experimentada na íntegra, não em partes.

Poly Styrene da carreira musical para a vida.
https://youtu.be/fYoiCStDTQg
https://youtu.be/ogypBUCb7DA

Ouça também MAAFA Demo 2017 disponível no Bandcamp:

https://maafahardcore.bandcamp.com/releases

Para conhecer mais o trabalho da banda siga a página no Instagram: @maafahardcore
@the1865band

A Negras no Metal agradece a entrevista concedida pela Flora Lucine e o site Sopa Alternativa pela contribuição.

Possíveis parcerias entre em contato nas páginas do Instagram:
@negrasnometal e Facebook: Negras no Metal

*Ana Paula Porfírio é criadora e administradora da página Negras no Underground.