Hip Hop Genealogia: as origens do movimento em quadrinhos

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Hip Hop Genealogia

Hip Hop Genealogia (Hip Hop Family Tree no original) é a primeira parte de uma série de volumes sobre as origens da cultura Hip Hop, a obra foi lançada no Brasil em 2016 pela editora Veneta. Criada por Ed Piskor, que escreve e ilustra as HQs, o autor cresceu cercado pela cultura Hip Hop e pelo mundo das revistas em quadrinhos e o universo dos heróis.

Em 2012 ele começou a trabalhar nas histórias e a lançá-las em capítulos on-line pela revista Boing Boing, quando publicou sua obra em volumes pela editora Fantagraphics ela entrou direto na lista de mais vendidas do The New York Times e recebeu diversos prêmios como o Eisner Awards, equivalente ao Oscar dos quadrinhos. O primeiro volume trata do período de 1970 a 1981 e atualmente o autor está trabalhando no quinto volume e a editora Veneta já prometeu lançar os outros volumes por aqui.

“(…) Tanto a HQ física como o hip hop são invenções intrinsecamente estadunidenses. Ambos de Nova Iorque, ainda por cima! Os dois também são filhos bastardos da cultura que ganharam respeito com o passar do tempo. Paisagens urbanas! Isso sempre mexeu comigo devido ao lugar em que fui criado. Os cenários de gibis de heróis eram familiares, e os rappers explicavam o que acontecia ao meu redor melhor do que os meus pais.” – Ed Piskor

Hip Hop Genealogia
Hip Hop Genealogia

As HQs seguem as origens do movimento Hip Hop, a base de tudo foi criada em meados dos anos 1970 no Bronx em Nova Iorque pelo DJ Kool Herc que tocava nas festas do bairro e procurou uma maneira de manter a parte da batida da música por mais tempo, já que era uma das partes que o público mais gostava, e foi assim que ele descobriu como criar “loops infinitos” no momento em que só estivesse tocando a parte da bateria na música, o que ficou conhecido como Break, com o tempo os MCs começaram a improvisar em cima da batida dos DJs e o movimento foi tomando forma.

Somos apresentados aos nomes fundamentais do movimento como Grandmaster Flash and The Furious Five, Afrika Bambaataa, o próprio Dj Kool Herc, Kurtis Blow, The Sugar Hill Gang, Funky Four Plus One e muitos outros (confesso que eram tantos nomes que algumas vezes me confundi um pouco), além de nomes dos bastidores como Sylvia Robinson, pessoa fundamental na gravação do primeiro rap da história: o “Rapper’s Delight” com o The Sugar Hill Gang, que, você vai descobrir, foi feito de maneira totalmente aleatória.

Para você ouvir enquanto lê. Fizemos uma playlist com as músicas que aparecem na HQ:

Temos também um panorama da arte como meio transformador dos indivíduos, o graffiti e o breakdance emergiram junto com a música daquela década em que as populações negras e latinas de Nova Iorque sofriam com a violência e o descaso das autoridades, fruto de uma política conservadora e racista do governo da época, que cortou investimentos para essas populações. Não era seguro andar na rua, a cultura das gangues se tornou forte no Bronx e o próprio Afrika Bambaataa era líder de uma das maiores gangues da região, mas ao se envolver com a cultura Hip Hop e as suas possibilidades, Bambaataa começa a trilhar um caminho de não violência. A ideia das “batalhas” entre grupos rivais e grupos de pessoas que se uniam para formar algo artístico, como rap e graffiti também tem relação com a cultura de gangues.

Também figuram nas histórias nomes como Fab 5 FreddyJean-Michel Basquiat e Keith Harring, levando a arte do grafitti para os salões de arte exclusivos dos ricos, além da presença de Debbie Harry e Chris Stein, membros da banda punk/new wave Blondie e a sua participação fundamental na divulgação dessa nova cultura para as massas com o vídeo da música Rapture, que mesclava o rap com o estilo da banda e apresentava alguns nomes do movimento ao público.

Ao longo de 128 páginas somos levados em um túnel do tempo, tanto no traço do autor, que remete às histórias de heróis dos gibis dos anos 1980 e desenha tudo de maneira “arcaica” no lápis e papel mesmo, sem usar meios digitais no processo, quanto nos personagens e histórias daquela época fundamental para a cultura pop atual. Há quarenta anos ninguém imaginaria que uma cultura surgida em meio a uma população marginalizada e excluída da sociedade dominaria o mundo.

Para quem gosta de música essa série de volumes é imperdível e é fundamental para entender essa cultura rica e transformadora que surgiu no Bronx e mudou a vida de muita gente, sugiro assistir a série The Get Down, que foi influenciada pelo trabalho de Piskor, e o documentário Hip Hop Evolution, ambos da Netflix, e depois se debruçar na leitura dessa excelente HQ.

Ouça algumas das músicas que figuram na HQ Hip Hop Genealogia:

Sugar Hill Gang – Rapper’s Delight:

Rapping And Rocking The House – The Funky 4+1:

Grandmaster Flash & The Furious Five – Superrappin’:

Kurtis Blow – The Breaks:

Afrika Bambaataa Zulu Nation Throwdown:

Blondie – Rapture:

Hip Hop Genealogia
De Ed Piskor
[Veneta, 128 páginas]
Tradução: Mateus Potumati

Fontes:
http://www.vitralizado.com/hq/papo-com-ed-piskor-o-autor-de-hip-hop-genealogia-quanto-mais-me-envolvia-nesse-projeto-mais-proximidade-eu-via-entre-o-hip-hop-e-os-quadrinhos/
http://www.fantagraphics.com/series/hiphopfamilytree/

Sou formada em Artes Visuais, apaixonada por arte, música, livros e HQs. Editora nos blogs “Las Pretas” e “Sopa Alternativa”, também colaboro com o “Delirium Nerd” e “Blogueiras Negras”.

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