O Sista Grrrl’s Riot foi formado por Tamar Kali, Honeychild Coleman, Maya Glick e Simi Stone e surgiu como forma das mulheres negras da cena underground se unirem.

O Riot Grrrl foi um movimento punk feminista do começo dos anos 1990 que tinha como símbolo Kathleen Hanna, vocalista da banda Bikini Kill. O movimento foi muito importante para as reivindicações feministas da época e ao colocar as garotas na frente, não só nos shows como no protagonismo da cena, mas ele não era muito inclusivo para mulheres não-brancas.

As origens do punk feminista vem da década de 1970 com uma mulher negra chamada Poly Styrene, vocalista do X-Ray Spex e dona do hino Oh Bondage! Up Yours!. 

Apesar das reivindicações por igualdade, contra o abuso sexual e emancipação feminina, não se pode negar que o Riot Grrrl era um movimento totalmente branco de classe média, encabeçado por uma mulher que atendia aos padrões de beleza eurocentricos brancos.

Neste contexto onde se encontravam as mulheres negras que faziam parte da cena underground na época?

O movimento Riot Grrrl

Bikini Kill
Bikini Kill. Foto: reprodução.

Tendo sido gestado no punk dos anos 1970 com nomes como Poly Styrene e The Slits o movimento Riot Grrrl emergiu no começo da década de 1990 com Kathleen Hanna e Tobi Vail vocalista e baterista do Bikini Kill respectivamente.

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Hanna era uma estudante da faculdade Evergreen em Olympia quando soube de uma colega de alojamento que havia sofrido uma tentativa de estupro, resultando em traumas físicos e psicológicos na vítima. Ela então organizou um desfile de protesto e um tempo depois conheceu Tobi Vail que escrevia um fanzine sobre feminismo e punk rock chamado Jigsaw. Um tempo depois surgiu o Bikini Kill, formado por Kathleen Hanna nos vocais, Kathi Wilcox no baixo, Billy Careen na guitarra e Tobi Vail na bateria.

Nos shows Hanna pedia para as garotas irem para a frente do palco como forma de trazer o protagonismo para as garotas e ao mesmo tempo formar um espaço seguro para a banda e as mulheres, já que os homens agrediam e assediavam as integrantes da banda nas apresentações. Os homens podiam estar presentes, mas no fundo do palco.

O espaço de shows de punk rock, assim como a indústria não eram receptivos para as mulheres de maneira geral, ou elas eram sexualizadas ao extremo ou não tinham espaço nesse meio. Nos anos 1980 poucas bandas eram lideradas por mulheres, ainda mais com foco no feminismo. Nos shows do Bikini Kill Kathleen Hanna cantava com raiva, algo que não era comum nas bandas femininas da época.

O movimento Riot Grrrl em si acabou tomando forma quando Hanna e Vail se mudaram para Washington DC, Tobi Vail e Jen Smith criaram um zine chamado Riot Grrrl, onde elas e outras mulheres escreviam sobre feminismo. Além do zine elas também organizavam reuniões com outra mulheres para falarem sobre abuso e outros temas, com atividades artísticas e palestras.

Em 1992 aconteceu o Riot Grrrl Convention onde mulheres de várias partes do EUA se reuniram para falar de temas como abuso, racismo, feminismo, violência doméstica, sexualidade entre outros assuntos. Essa reunião daria origem a outras vertentes do movimento pelo país.

Em 2013 foi lançado o documentário The Punk Singer, que fala sobre o movimento a partir da vida de Kathleen Hanna. Além do Bikini Kill, Bratmobile, L7, 7 Year Bitch, Heavens to Betsy são algumas bandas que também fizeram parte do movimento.

As mulheres negras e o Riot Grrrl

Ramdasha Bikceem
Ramdasha Bikceem. Foto: reprodução.

O Riot Grrrl foi um movimento importante para as mulheres na cena alternativa dos anos 1990, que era dominada pelo movimento grunge e o Brit Pop da época, e veio junto com a terceira onda do feminismo que emergiu naquela década, mas é inegável o fato de que ele era predominantemente branco e de classe média.

Apesar de discutir racismo em suas reuniões, tudo era tratado do ponto de vista das mulheres brancas que dominavam um ambiente pouco acolhedor para outras mulheres não brancas. A própria Kathleen Hanna reconhece a forma como essas mulheres foram tratadas, além de se arrepender das letras do próprio Bikini Kill como o trecho da canção Liar:

“Eat meat / Hate blacks / It’s all the same thing”.

Existiram mulheres negras presentes no Riot Grrrl, mas eram poucas e sem protagonismo, as mulheres negras que gostavam de punk na época se sentiam excluídas da cena e tinham poucos iguais para se reconhecerem. É difícil não sentir um incômodo ao assistir ao documentário The Punk Singer e perceber que elas não faziam parte efetiva do movimento. E por mais que Kathleen Hanna diga que havia mulheres negras, não foram elas que entraram para a história do movimento.

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Uma das poucas garotas negras de que se tem notícia é Ramdasha Bikceem, dos muitos fanzines produzidos na época havia alguns críticos a falta de diversidade do movimento como o Bamboo Girl e o Chop Suey Specs, feito por garotas asiáticas e o fanzine de Ramdasha chamado GUNK. No acervo de fanzines curado por Lisa Darms entre 1989 e 1996 o fanzine de Ramdasha é único feito por uma garota negra.

GUNK
Capa do fanzine GUNK#4. Foto: reprodução

Ramdasha era uma adolescente punk que após ler fanzines como Girl Gem e Bikini Kill, resolveu criar o seu próprio aos quinze anos. Inicialmente o GUNK tinha fotos dos seus amigos e letras de músicas. Com o tempo ela começou a falar sobre o racismo na cena punk, a falta de diversidade no Riot Grrrl e como ela se sentia excluída nesses ambientes.

“Elas tinham um workshop sobre racismo e ouvi dizer que não era muito efetivo, mas sério como poderia ser se estava cheio de garotas brancas em sua maioria. Uma garota com quem eu conversei após as reuniões disse que as garotas asiáticas estavam culpando todas as garotas brancas pelo racismo e que não poderia ‘lidar com aquilo’.(…) No geral a experiência da convenção das Riot Grrrls me mostrou muitas coisas diferentes e eu sinto muito em dizer que a maioria delas não foram boas… Não me entenda mal eu sou totalmente a favor da revolução das garotas agora… mas talvez ela não deveria se limitar a punk rock grrrls brancas de classe-média porque não há como negar que é assim.” – Trecho do fanzine GUNK #4

Fanzines como o de Ramdasha e relatos de outras garotas não brancas da época explicitam a falta de diversidade de um movimento que supostamente era para todas as mulheres.

Sista Grrrl’s Riot a união das excluídas

Sista Grrrl's Riot
Sista Grrrl’s Riot. Da esquerda para a direita: Simi Stone, Maya Glick, Honeychild Coleman e Tamar-Kali. Foto: reprodução

Enquanto as garotas do Riot Grrrl estavam lutando para ter o seus direitos como mulheres reconhecidos, as mulheres negras que frequentavam a cena punk e underground estavam tentando ser reconhecidas como mulheres e indivíduos que mereciam um espaço e respeito.

“Sista Grrrl was my response to Riot Grrrl because it just felt super white.” – Tamar Kali

Tamar-Kali era uma mulher negra punk que frequentava a cena musical em meados dos anos 1990, o cenário punk underground da época era totalmente masculino e ela começou liderando bandas compostas por homens, sendo ela a única garota negra na maioria dos lugares que frequentava.

Sista Grrrl's Riot
Sista Grrrl’s Riot. Foto: reprodução.

Apesar do Riot Grrrl ser uma forma de incluir mulheres no underground, a falta de diversidade a fez sentir que aquele também não era o seu lugar. Sendo uma mulher negra e lésbica com um visual punk e uma atitude de combatente, ela lutava para ser reconhecida como uma mulher em ambientes que poderiam ser violentos e inóspitos para pessoas como ela. As situações por quais ela enfrentava não condiziam com a imagem que as mulheres daquela cena passavam. “Eu pensava, eu tenho que sobreviver. Eu tenho que me defender. Riot Grrrl parecia muito divertido e eu não estava brincando.”  – Tamar-Kali para a Vice.

Eu entendi sobre o que se tratava o Riot Grrrl. Eu não acho que era excludente, mas ele não me parecia inclusivo. (…) Eu não me via nem via minha história, então foi por isso que o Sista Grrrl veio a tona mais tarde com outras mulheres não brancas que sabiam que eram punk rockers e navegavam por aquela cena e tinham sentimentos similares sobre isso. Sista Grrrl foi minha resposta ao Riot Grrrl porque ele me parecia super branco.Tamar Kali

Honeychild Coleman também era a única garota negra do seu grupo de amigos punks na escola, fã de bandas como Blondie e The Clash, ela sabia que tinha que sair de sua cidade natal no Kentucky e tentar a vida em Nova Iorque no intuito de encontrar outras pessoas como ela. “Eu sabia que não poderia ser a única. Eu estava cansada de ser a única”. – Honeychild Coleman.

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Após se formar em artes e seguir um namorado até a Califórnia, ela acabou seguindo sozinha para NY onde teve dificuldades para se inserir na cena musical local e iniciar a sua carreira na música. Ela então começou a se apresentar no metrô da cidade. Frequentando a cena underground local ainda assim ela não conseguiu encontrar nenhuma outra garota como ela. Cercada por homens, ela teve as suas primeiras colaborações com outros caras e acabou se inserindo nesses grupos como a única mulher negra.

Sista Grrrl's Riot
Tamar-Kali e Maya Glick. Foto: reprodução.

Um dia, um dos colegas de quarto de Honeychild levou Tamar-Kali em sua casa para um jantar e foi assim que as duas se conheceram. Elas rapidamente encontraram similaridades em sua experiência como mulheres negras e punks e ficaram surpresas por nunca terem se conhecido antes.

Pouco tempo depois Tamar-Kali conheceu Maya Glick, quando um amigo disse que estava tocando com a irmã e essa irmã era Maya, ela soube na hora que Honeychild também tinha que conhecê-la. “Eu me lembro quando eu fui vê-la, ela fez um cover da Betty Davis. Eu quase perdi a cabeça porque eu conheci Betty Davis quando eu tinha 19 anos e isso foi antes dela se tornar famosa.” conta Tamar-Kali sobre o primeiro encontro com Maya.

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A última Sista Grrrl a integrar o grupo foi Simi Stone. Tamar-Kali havia combinado com Honeychild e Maya para que as duas se conhecessem em um dos shows dela. Enquanto Tamar estava no backstage se preparando para o show ela viu Simi Stone tocando um violino e ficou embasbacada. Quando foi falar com Honeychild ela disse: “aquela é minha amiga Simi”. Assim se iniciava o Sista Grrrl’s Riot.

Sista Grrrl's Riot
Flyer do primeiro Sista Grrrl’s Riot.

As quatro então resolveram fazer alguma coisa juntas e foi assim que em 14 de fevereiro de 1997 a primera revolta aconteceu. No flyer de divulgação dos shows as quatro aparecem prontas para a luta, armadas com revolveres e facões anunciando o primeiro Sista Grrrl’s Riot. Elas se apresentaram no Brownies, uma casa de shows na 5ª Avenida. Cada uma se apresentou com a sua respectiva banda e acabaram criando um espaço seguro para outras pessoas negras punks, que também se sentiam excluídas, participarem da cena.

Sista Grrrl's Riot
Cartaz das Sista Grrrl’s Riot no CBGB. Foto: reprodução.

Os shows das Sista Grrrls foram um sucesso e durante alguns meses elas se reuniam para mais revoltas, chegando a tocar no lendário CBGB, bar que fez parte da história do punk em Nova Iorque. Elas também davam espaço para outras mulheres não brancas que eram excluídas de cena tocarem, criando um espaço feminino seguro para todas as mulheres, até Ari Up do Slits abriu um dos shows das Sistas Grrrls.

Ter com quem se reconhecer foi muito importante para as pessoas negras que eram excluídas no underground da época. “O que foi realmente comovente e impressionante é que nenhuma de nós havia tocado para tantas pessoas negras em um mesmo lugar na nossa vida inteira até nós fazermos a primeira revolta.” – Conta Honeychild Coleman.

Infelizmente os registros em vídeo dos shows são difíceis de ser encontrados e não há nada disponível no Youtube.

O legado das Sista Grrrls

Afro-punk documentário
Capas do documentário Afro-punk. Imagem: reprodução.

As Sista Grrrls são parte fundamental da história do movimento Afropunk que surgiu nos anos 2000 nos EUA e se espalhou pelo mundo como um espaço seguro para pessoas negras alternativas se encontrarem.

Em 11 de setembro de 2003 foi lançado o documentário Afro-punk sobre a cena punk rock negra e as dificuldades que os jovens negros enfrentavam para se inserirem em um ambiente completamente embranquecido. O documentário de James Spooner, um jovem negro que curtia punk rock, mas não se sentia parte da comunidade, foi feito totalmente na filosofia punk do DIY (faça você mesmo). Ele explora a identidade desses jovens e o que é ser uma pessoa que se reconhece como negra e punk no underground.

Tamar-Kali foi escolhida para ser o rosto do documentário e sua canção Boot faz parte da trilha sonora do filme. O Afro-punk serviu para explicitar os sentimentos de pessoas que sentiam não fazer parte de um ambiente que, em tese, se promovia como diverso. Temas como relacionamentos interracias, estilo, solidão, não pertencimento dentro da própria família, estereótipos e também o racismo no underground são discutidos em 1 hora de documentário.

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Honeychild Coleman e Maya Glick também participam do documentário que foi o estopim para a criação de um movimento que mais tarde se tornou um festival e hoje está presente em cinco países, incluindo o Brasil.

Assista aqui o documentário Afro-punk:

Depois que o filme foi lançado, ele começou a ser exibido em diversos festivais e todas as questões e dificuldades expostas evidenciavam a necessidade de se criar uma comunidade negra punk, que fosse um lugar seguro para essas pessoas se expressarem e serem aceitos, longe do assédio e do racismo dos espaços hegemônicos brancos.

O filme também ficou disponível em um site na internet (na época não existia youtube) e a sessão de comentários do site acabou criando uma comunidade de excluídos que se reuniram na 100ª exibição do filme no Brooklyn em Nova Iorque em 2005, dando início ao Festival Afropunk.

As mulheres negras no punk

Sista Grrrl's Riot
Foto: reprodução.

Desde os primórdios do punk na década de 1970 com bandas como Death, Bad Brains e Pure Hell nós já sabemos que o punk também é preto. Além também de sabermos que Poly Styrene, Pauline Black e Fancy Rosy também são nomes fundamentais para entender a participação feminina negra no punk rock dos anos 1970.

Seguindo para os anos 1980 com Tina Bell em Seattle, colocando os primeiros tijolos na fundação do grunge que emergeria no mainstream uma década depois, as mulheres negras nunca deixaram de participar dessa cena.

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Como vimos, nos anos 1990 o Sista Grrrl surgiu como contraponto ao Riot Grrrl e foi uma alternativa para mulheres negras, latinas e asiáticas pertencerem ao movimento punk do seu jeito. Servindo de inspiração para outras garotas e criando um movimento maior.

Hoje em dia temos bandas como Big Joanie, Skinny Girl Diet, SecondLady, The 1865, The Black Tones, Pleasure Venom, TV Tramps, The Txlips, The Tuts, Nova Twins, T-Restaxy, Madame So entre outras, que mantém o espírito genuíno do punk e do rock vivos. Mostrando que mulheres negras também podem fazer parte da cena de maneira diversa e nos seus próprios termos.

Temos muito o que agradecer as Sistas Grrrls e a sua revolta.

Você pode ouvir as Sista Grrrls originais e as outras bandas na playlist abaixo:

 

Referências:

http://www.modadesubculturas.com.br/2016/05/-historia-do-movimento-riot-grrrl-punk-feminismo.html
http://bucolismodecronopios.blogspot.com.br/2017/05/sistas-grrrl-riot-representatividade.html
https://longreads.com/2015/08/05/what-is-sista-grrrls-riot-punk-music-collaboration-and-revolution/
https://www.bitchmedia.org/post/why-i-was-never-a-riot-grrl

https://www.spin.com/2013/09/kathleen-hanna-the-julie-ruin-riot-grrrl-five-things-you-probably-didnt-know/
https://broadly.vice.com/en_us/article/9k99a7/alternatives-to-alternatives-the-black-grrrls-riot-ignored
https://deepblue.lib.umich.edu/bitstream/handle/2027.42/96647/addiecs.pdf
https://aliciaborromeo.wixsite.com/playlikeagirl/riot-grrrl-1
https://kipdf.com/race-and-riot-grrrl-a-retrospective_5ae8dc7b7f8b9a08048b45b1.html

Women of Color are Decolonizing the Punk Movement